
22/11/2009

20/11/2009

Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que soque não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo : "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu. Fernando Pessoa

Poema em linha reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa
18/11/2009

Existe uma ponte. Existe um sim. Existe um lago. Existe um fundo. Existe um horizonte. Existe uma bola. Existe um coração. Existe um batimento. Existe um corpo. Existe um movimento. Existe uma respiração. Existe uma vida. Existe uma chance. Existe um precipício. Existe um momento. Existe um tempo. Existe um por que. Existe uma resposta. Existe um principio. Existe um fim. Existe uma escolha. Existe um não. Existe você. Existo!
Fabiane Rivero Kalil
16/09/2009

27/07/2009
28/01/2009
Ciclo
Lugar, olhar
Lugar, visto
Lugar, instinto...
Encontro
Desencontro
Tempo --------------------- espaço
Você, eu...e...eu
Ritmos, batidos
Indo e vindo
Idas e vindas
Vidas,... vividas
Movimentos que movem
Ventos que acolhem
Que acolhem
e recolhem
encolhem
olhem
em
me
e....
Fabiane Rivero Kalil
12/01/2009
FELIZ 2009!
Movimentos, carros, luzes, informações em cada milímetro de asfalto... Confesso que fiquei um pouco tonta e minha cabeça doeu levemente com o peso da cidade grande.
Percebi esse fato quando entrei no shopping. Não sei se foram as luzes que me hipnotizaram, ou se foi ar rarefeito que fez meu cérebro perder a capacidade de pensar, só sei que senti um desejo incontrolável de consumir coisas inúteis. Não importa quem ou o que foi o culpado, só sei que, inexplicavelmente, comprei um cofre no formato de um porco de pelúcia que canta "my only sunshine" toda vez que vc coloca uma moeda nele. Fantástico!
Fim de ano é o paraíso fiscal da política brasileira. Afinal, para que falar de crise, guerras e efeitos colaterais causados pelo desequilibrio ambiental, se está chegando o carnaval? Para quê? Eu não vejo motivo algum para parar de sermos o que somos, agir como agimos, afinal, o próximo ano chega rápido... E viva a fanfarra! E feliz ano novo, que 2009 seja melhor que 2008... Ops! Déjà vu!...
Fabiane Rivero Kalil
09/01/2009
CER
Sentir e... transformar!
Palavras ditas
Palavras escritas
Palavras mudas
musicadas...
Porém cheias de cheiras com cerejas...
Ventos em loco
nem movem...
O sentido
que a cada dia é dito
editado...
tato!
Fabiane Rivero Kalil
05/11/2008
???
Só pelos temas dá para ter certa noção de todas as coisas que eu gostaria de ser... Sim! Eu já quis ser médica, cientista, veterinária, atriz, diretora de cinema, roteirista, crítica de cinema e fazer mecatrônica.
Depois que me formei, descobri que eu fazia muitas coisas que a maioria dos jornalistas não sabiam fazer. Eu editava vídeo, fazia layout para sites, animação em flash, artes no corel e ilustrator, roteiros, estudava 3D e amava aparelhos eletrônicos. Eu me achava uma ótima jornalista, só não entendia uma coisa, as pessoas insistiam para que eu fizesse matérias usando as regras da nossa excelentíssima gramática e que estivessem dentro das regras específicas dos textos jornalísticos, o mais conhecido lead. Eu simplesmente odiava escrever esse tipo de texto, afinal, não era história, não tinha emoção, e quanto menos adjetivos fossem usados, melhor era o texto. Meu deus! O que é um texto sem sensações?
Até que um belo dia, depois de quatro anos ACHANDO que eu era JORNALISTA, fui numa entrevista na Jovem Pan, onde descobri que eu não fazia nada que um jornalista faz. Eu era tudo, menos jornalista. Meu texto não serve para os jornais, talvez para a parte de crônicas. Mas para eu escrever nessa editoria, eu teria que ter uma credibilidade fora do normal, ou seja, teria q ser jornalista de trás para frente.
Depois que descobri que não sou uma jornalista, descobri que eu sou... Hum! Eu sou... Difícil! Não sou nada! Simplesmente sei fazer algumas coisas que as pessoas gostam...
Acho que voltei ao marco zero! Acho q já posso voltar para barriga da minha mãe!
23/09/2008
Parte 9
Às vezes vejo-me incrédulo. Meus olhos só vêem nuvens e não mais lua, mas logo alguma luz aparece para aquecer a solidão da noite. Nestes dias o quarto se inunda de penumbra, meus pensamentos ficam foscos e eu sem ar...
Às vezes queria ser a lua, me cobrir de nuvens e me esconder dos infinitos olhares que buscam, nem sempre algo definido, simplesmente buscam o que falta... E também tem aqueles momentos que quero explodir. Sim! Principalmente quando chego a algum lugar do espaço, onde me encontro, onde pude observar e juntar fragmentos de pensamentos. Não aquela explosão ruim, mas aquela que contamina o ambiente, invade a mente e finalmente, algo muda de lugar.
Atrás de mim tudo se move em caixas.
O cheiro ainda está pelo quarto, as lembranças também. É como se elas voassem livremente, sem dor, sem pesos. Isso que eu chamo de um passado bem resolvido. Simplesmente se transformam em sorrisos e saudades.
Tenho um pouco de receio de continuar mexendo nesta caixa. Ela olha para mim com cara de desespero. Não sei se é desespero de estar ali, aberta, exposta ou se ela quer se livrar de todo esse passado que já foi e que simplesmente ninguém lembra. Se ninguém lembra porque eu deveria lembrar? Talvez eu não queira lembrar.
Mas, hum... Que cheiro delicioso pelo quarto... (senta no chão, encosta na parede e fecha os olhos) E se tiver mais lembranças agradáveis como esta? Não quero que elas se percam, nem sejam esquecidas pelo tempo ou...
A luz do luar entra pela janela juntamente com um vento forte e gelado. O vento bate de frente com uma pilha de papeis dentro da caixa rosa. Os papeis, de diferentes tipos e tamanhos, se espalham pelo quarto enlouquecidamente, descontrolados. Mas antes de qualquer lembrança voar pela janela, o vento se acalmou e transformou-se numa serena brisa de primavera.
O céu começou a clarear e os pássaros a cantar. Realmente a brisa não só lembrava a primavera como de fato a estação acabara de chegar. Algo mudou.
O mundo girou. O sol se moveu. O jardim hoje tem flores...
Que luz é essa? Que cheiro é esse? Não é mais o cheiro da carta... Nossa! O que aconteceu com meu quarto? As lembranças se revoltaram por estarem dentro da caixa e resolveram sair sozinhas? O sol está mais quente que ontem... Minhas costas doem. O chão não é mais como antigamente, antes podia dormir aqui e nada acontecia. (risos) Se minha mãe estivesse aqui ela diria que a idade chega para todo mundo.
(passos subindo a escada)
- Filho!
- Mãe?
- Você não quer mais seu xampu?
(abre a porta do quarto)
- Que bagunça é essa? Filho... (olhar de indignação)
- Mãe, não é bagunça! É organização temporal.
- Temporal? Com certeza parece que passou uma tempestade aqui.
- Esquece mãe. Preciso me concentrar. Por favor... (aponta para a porta)
- Faz dias que você não sai deste quarto...
- Mãe!
- O que você fica fazendo aqui?
- Mãe!
- É pornografia?
- Mãe!
- Drogas?
- Mãe!
- Você é gay filho? Pode falar para mamãe...
- Mãe, chega!
- Mas...
- Sem mais nada... Preciso ficar aqui e arrumar as coisas... Obrigado pelo xampu, é esse mesmo que eu gosto.
- O que você faz com os xampus?
- Mãe. Por favor! (aponta para porta)
(Porta fecha. Passos descendo a escada)
O que ela quis dizer quando me perguntou o que eu faço com os xampus? Será que ela acha que coloco no nariz? Ou me masturbo olhando para a mulher que está na embalagem? (risos)
11/09/2008
Parte 8
03/09/2008

Parte 7
O frio canta alto pela janela e o breu invade o quarto. O sonho penetra no corpo encolhido sobre a cama. O silencio amortece os sentidos, torna o ar pesado e o sono num grande pesadelo. As mãos apertam o colchão e os dentes à boca. O corpo se encolhe nele mesmo, na tentativa de se proteger do nada que o ameaça.
O vazio toma conta e rodeia a cama. Anula tudo por onde passa. A cama não existe mais.
As bases estão sem tempo ou espaço, encima ou embaixo, perderam sua lógica e seus sentidos. Os eixos X,Y,Z se tornaram XYZABC... Nada mais se define. O corpo adormecido se confunde entre o real e o imaginário. O mundo paralelo se divide.
Sombras descolam-se do chão na tentativa de serem reais, de deixarem de serem somente um recorte da realidade, um efeito dado ao que existe ou simplesmente um contorno que imita tudo que se move.
A gravidade se esconde encima da cabeça, entra pelo tímpano e escoa pelo eco que emite dor. O travesseiro se transforma em milhares de pedregulhos que espetam a face. A consciência está fora da mente e a mente fora da pessoa. As partículas estão em guerra. Mente, alma e espírito X realidade, tempo e medo. Interior não exteriorizado, alucinado no não poder.
Farelos que saíram de um pão. Hoje não mais pão, mas sim farelos. Juntos são algo, separados, são apenas farelos. Porém, antes mesmo, desses farelos serem pão, esse pão era formado por diferentes elementos, que por sua vez, não deixaram de existir, mas juntos, misturados, se transformaram num novo elemento...
Cada pedacinho de musica que escutamos, cada pessoa que passa pela nossa frente ou até mesmo cada cheiro que entra no nosso corpo, tudo modifica nossa composição, tudo acrescenta, abre perspectivas, horizontes, portas... Constroem prédios, relações, ódios... Destroem conceitos, plastificam momentos e paralisam as pessoas de medo.
O novo surge a cada instante de vida. A metamorfose acontece! Ela não espera voluntários, ela simplesmente acontece!
Cada caixa espera ser um novo elemento, nesse novo momento. As caixas fechadas são apenas caixas fechadas, como os farelos que para nada servem...
- Aaaahhh!!! MÃÃÃÃÃE!!!
Mãe? Meu deus. Não acredito que eu chamei minha mãe. Estou petrificado de medo, como uma criança depois de um pesadelo. Minhas mãos, minha cabeça e meu maxilar doem. Espero que ela não suba. Seria ridiculamente patético. O que eu vou falar para ela se ela subir? “Mãe, então, é que eu estava aqui arrumando o quarto, quando de repente, eu fiquei com medo de uma caixa rosa, ela queria sugar minha alma. Resolvi deitar para me acalmar e tive um pesadelo, algo parecido com a morte...”. Não! Patético! Ela não entenderia... E certeza teria a brilhante idéia de me levar ao médico.
(passos subindo a escada)
Deus! Deus! Não deixe que seja a minha mãe... O que eu vou falar para ela?
- Filho? Tudo bem? (tenta entrar no quarto) Não consigo entrar. O que tem atrás da porta?
- Estou arrumando o quarto. É uma caixa que está atrás da porta.
- Você quer falar comigo? Eu escutei você me chamar...
- Hum... É que... (meu Deus o que eu falo para ela?) Não queria sair agora do quarto, no meio dessa arrumação. A senhora mesmo sabe o quanto é ruim parar algo na metade... Então eu estava pensando, se, assim...
- Mas quanta embolação... Parece até que está abobado! O que você quer?
-Xampu! Isso... Eu preciso de xampu...
(passos descendo a escada)
Até a próxima parte.
Ab.,
Fabiane Rivero Kalil
28/08/2008

Talvez dentro dela haja um passado limpo, ou que foi limpo com o tempo. Talvez não haja perigo de abri-la. Espero que não me afete ou invada minha mente com lembranças esquecidas.
Eu não desejei cheirar mal. Mas mesmo assim o cheiro apareceu. Repugnante!
O nosso cheiro deveria ser algo que delatasse as intenções de cada um. Cheiros bons para intenções boas, variando de acordo com a intensidade de cada ação. E cheiros ruins alertariam a todos...
Poderia ser assim também para as lembranças, as caixas, os objetos... A vida poderia cheirar emoções...
Talvez não... Se fosse assim, o Homem perderia seu mistério e seus segredos. Os sentimentos seriam revelados pelos cheiros e por conseqüência, a racionalização seria inevitável. As questões humanas seriam resumidas em tabelas periódicas e colocadas em palavras concretas, não mais subjetivas. Ainda bem que as verdadeiras definições da vida estão bem guardadas...
Bem guardas estão as coisas dentro desta caixa rosa. Enrolei com tanta fita adesiva que não consigo mover a tampa. Caixa pesada. As caixas grandes repletas e as pequenas vazias...
Depois de muito esforço a caixa foi aberta e dela saiu um cheiro de naftalina misturado com sabonete. A caixa estava repleta de livros, cadernos, folhas, sensações eternizadas no papel, tentativas de explosões no silêncio e registros do passado que já foi e voltou em linhas.
Dei um pulo para trás repentinamente, meu coração acelerou e aqueceu o corpo. Guardei uma parte do meu coração aqui e não me lembrava. Que sensação é essa que há anos não sinto? Que lembranças são essas que me aprisionam? Não quero sentir, não quero chegar mais perto. Corro o risco de ler... Não sei o que o fazer com essas linhas, com esses sentimentos, com essas pessoas encaixadas, encaixotadas... Preciso de ar!
Olho para fora, mas as palavras me faltam. Olho para o lado e me sobram pensamentos. Lembro vagamente do que escrevi. Fragmentos de um todo que gera angustia e completa meu corpo de medo.
Fixei meus olhos na lua e segurei firme na grade da janela. Não posso cair. Minhas mãos geladas e molhadas marcam a grade com nervosismo. Preciso dizer, preciso... Não consigo dizer nada. Nem para lua. Nem para o improvável... Nem para os surdos, nem para o desespero que me mantém nesta paralisia. Estou presa. É isso!
Vou deitar. Quem sabe eu crie coragem e consiga arrumar a caixa amanhã. Ela não está com a aparência muito boa. A água a deformou. E ela me deformou de medo. E o medo, essas horas, deve estar rindo da minha condição de verme.
Preciso achar uma posição boa para que eu não me vire muito rápido. A queda não seria uma ótima idéia hoje. Nenhuma palavra iria me segurar. Nem o edredon da minha avó iria me salvar hoje. Meu coração dói.
Os olhos fechados transbordam escuridão sobre o corpo encolhido no colchão. Solidão sai pelos poros assustados e os pontos de luz nada iluminam, se tornam ausentes no meio de tanta asfixia. A ordem embaralhou a lógica e a visão ficou difusa... A cama ficou mais estreita e a queda mais provável...
26/08/2008

O que é isso? Que luz é essa? Que calor é esse?...
O vento bateu dentro do quarto e um odor horrível invadiu o ambiente...
A realidade invadiu a vida pelo nariz. Cheiros sempre trazem lembranças. Sensações. E com elas, reações.
Um ótimo lugar para cultuar o corpo humano é no salão de beleza. Lugar do “prazer” obrigatório. Diria até que é um “prazer” culturalmente e socialmente imposto.
25/08/2008

Não sei ao certo se quero me mover também. Não sei ao certo se sei lidar com tudo que envolve, que anda, grita, sonha... Só sei que não quero que me toquem, me façam sentir qualquer sensação, seja de frio ou calor, de amor ou ódio. Simplesmente quero ficar aqui. Parado. Parado não... Na verdade quero observar a bagunça que me cerca e entender onde colocar o que.
Ontem tirei tudo das gavetas. Tudo! Fui tirando aleatoriamente. Misturei sem querer camisetas com meias, cintos com livros, canetas com lenços, papéis riscados e em branco. Tirei também várias caixas que há anos não toco. Estão lacradas, lembro-me vagamente o que tem em cada uma.
Agora o que fazer com tudo isso? Não encontro mais nada! Nem onde sentar, nem onde está o começo do chão. Acho que nem a porta eu consigo abrir. Talvez se eu abrir toda a janela essas sombras pretas, em formato de bolas achatadas, saiam da minha parede e a luz entre por completo. Talvez a luz me ofusque, já que faz tanto tempo que me alimento dessa luz gerada pelas lâmpadas. Bem que dizem que essas podem até bronzear...
Que barulho é esse na porta? Será possível que alguém vai entrar? Seria impossível, a porta está totalmente bloqueada.
- Quem está ai? É impossível entrar...
- Impossível para quem? Se esta porta só está fechada do seu lado e não do meu?
(Desisti de falar... Por alguns instantes me veio um silêncio. Acho que falei em pensamento com a porta que não mais respondia.)
Acho que foi embora. Não entendo o porquê da pergunta. É obvio que preciso de ajuda, mas a questão não é se eu preciso de ajuda ou não, mas sim se alguém realmente pode me ajudar.
Essas caixas lacradas estão cheias de passado, cheia de lembranças que tenho até medo de revirar. Prefiro não pensar sabe? Fica mais fácil.
Certa vez, lembro-me, que estava num bar, sozinho, e conheci um índio. Sim! Um índio de verdade, criado com regras indígenas... Conversei horas com o cara, até ele me dizer que tinha perdido a virgindade com a própria irmã. Quem fala isso? Foi um choque cultural que quase cai na armadilha, dos meus preconceitos, de criticá-lo. Quase o julguei com os meus pré-conceitos, aqueles estabelecidos dentro de uma sociedade, que são replicados dentro de casa, na escola, na igreja... Os famosos “certos” e “errados” que manipulam a nação com rédeas curtas.
Por que eu entrei nessa questão mesmo? Ah! As caixas... Sim! Nesse mesmo dia, nessa mesma conversa, quando o assunto começou a ficar chato e o álcool entorpeceu meus sentidos, fixei o olhar num homem magro que se movia freneticamente. Cada movimento dele era frenético. Eu suei só de olhar como cada olho dele tremia. Nessa hora o índio falou baixinho: - cocaína.
Não quis aprofundar o assunto. Nem entrar no mérito de dar qualquer tipo de lição de moral, ou conscientizar os jovens loucos que andam, em plena quinta-feira, pelas ruas de São Paulo. Afinal, eu mesmo estava dopado de algum tipo de substância que me fazia sentir outras coisas que sozinho não conseguiria... Onde estava mesmo? (risos- minutos em silêncio) Sim! Aprendi a fazer caixas olhando o cara magrelo frenético. Ele dobrava freneticamente um monte de flyers e depois os encaixava perfeitamente até se formar uma linda caixinha de papel. Ao todo foram cinco caixas feitas freneticamente pelo homem “freneticola”. Aprendi. Não me pergunte como, mas aprendi.
Não decidi o que colocar dentro de nenhuma das caixinhas que eu fiz. Todas espalhadas e vazias pelo quarto.
O vazio tomou conta do quarto. Como se o quarto fosse uma grande caixa vazia. Nada ali fazia sentido, nada ali tinha mais lugar definido. De alguma forma, tudo estava paralisado. O ar claustrofóbico foi aniquilado por um impulso repentino de abrir a janela...
22/08/2008

Estou pela metade. Quase inteiro, mas menos. Mais de menos do que demais. A falta de riso me prende o peito como um soluço que não sai. Prende a lágrima com um caroço na garganta, os movimentos, com um gelo de medo, e os pensamentos ancorados num cais.
Meio acordada, meio dormindo, sonolenta criatura. Ainda respira. Ainda se move dentro dos milímetros que a delimitam dentro do colchão. Como se o jogo fosse brincar de estátua para que o bicho papão, que mora embaixo da cama, não puxasse o dedão no meio da noite. Detalhe importante, os pés nunca para fora do cobertor. A cabeça e as orelhas bem escondidas, como se fugissem dos sons. Para que ninguém a matasse, nem por trás, nem pela frente, nem pelos pés, nem pelas mãos e...
Aaaah! Quase! Quase cai! Meu Deus! Movi-me demais. Que susto! Meu coração deu uma volta olímpica saltitante por todo o quarto e invadiu meu mundo por todos os meus poros...
Meu pijama está molhado mais do que o normal, acho que molhei o colchão também.
Meia noite! Noite cinza! Cinza anula as cores. Abri a janela para que o ar preenchesse o vazio do meu corpo. Mas o que recebi da lua foi um tom amarelado.
Tirei meu pijama. O nu contornou minha silhueta, e a sombra fez seu desenho para fora da janela. Parece que a sombra dança ao som baixo dos grilos do gramado. Que o sereno encobre o meu corpo de orvalho e faz o silêncio ecoar a razão. Os prédios limitam a visão do horizonte.
Prédios cinza! A cor da mesmice. Nada melhor para completar a minha noite de susto. A vida assume o cinza como cor mestre.
O vento trouxe tristeza, meus pêlos se arrepiaram de frio, mas continuo inerte. Meus olhos não param de escorrer ações, tentativas, falas frustradas...
TRIM! TRIM! TRIM!
Preciso me vestir! Quem será a essa hora?
- Alô? Alô?
- (barulho de respiração)
TU! TU! TU!
Odeio telefone! Odeio telefone! Quem será esse filho do demônio que teve essa ótima idéia de me amolar justamente agora? Odeio respiração e odeio odiar. Sentimento péssimo! Talvez não esteja odiando, isso com certeza é ira, raiva, contraída pela linha do telefone. Quem disse que só cachorro transmite raiva? E não quero jogar a culpa no telefone, objeto inanimado, mas o meu ódio pode ser resultado da certeza de que existe vida do outro lado. Do outro lado da linha. Sem essa de vida do outro lado, sei lá onde.
Essas conversas entre humanos me amolam, nem sempre fluem bem, nem sempre são poéticas as palavras e nem sempre acabam como esperamos. Como exemplo, essa conversa estranha que acabei de ter com uma respiração.
Vou colocar um pouco de música para me acalmar. Essa vitrola já teve mais graça, dela as músicas costumavam sair com mais intensidade. Hoje em dia ela se repete no mesmo repertório de anos. Bom, faz tempo que não compro novos discos. A minha coleção parou no mesmo instante em que eu parei de ter idéias. Preciso de idéias. Preciso de novos discos também.
Mas para isso teria que sair do meu quarto...
21/08/2008

Gostaria de tirar tudo isso de dentro, todo o meu eu de dentro e explodi-lo para fora, num ato de coragem. Mover-me dessa cama num grito alucinante de encontro, parar de pensar e agir... mudar!
Como mudar? Ra! Estou aqui parado ainda.
Essa cama esfriou de repente. Em algum lugar nesse armário está o edredom que minha avó me deu. Aquele edredom retalhado que ganhei de aniversário. O interessante é que ele ainda parece novo... Bem diferente desses produtos descartáveis de hoje em dia.
Que raiva que me dá. Você paga um absurdo para ter um “lançamento” e pronto, daqui a alguns meses ou no máximo em um ano estraga, ou pior, as lojas têm a cara de pau de colocar em liquidação, ou seja, o mesmo produto que você comprou está 10X mais barato. Não entendo como sou idiota de comprar “lançamentos”. Não deveriam chamar de “lançamento”, mas sim de “lançalucro” ou “paraotário”. Bom, vou pegar o edredom antes que eu congele.
Hum! Isso sim é aconchego. Minha cama quentinha, e eu aqui, no casulo feito pela vovó. Chega até a ser engraçado. Lembro-me de quando ela estava costurando, dedicou-se por meses para que tudo ficasse perfeito. Isso sim é “lançamento” exclusivo. Diria que uma linha de amor. Nunca parei para pensar quanto amor existe neste cobertor.
O amor pode estar em qualquer lugar, ser de todos os formatos e ter mil maneiras de ser transmitido, basta receber. Doar. Receber... Estou quente, obrigado!
Estou cansado nesse momento, mas quente! Sinto-me acolhido no meio do abismo gelado. Como se por instantes eu tivesse caído no meio dos sentimentos e feito dos retalhos uma pilha de confusão. Até que alguém pegou cada trapo e uniu. Deu sentido e utilidade para cada pedaço. Envolver-se. Envolver-me. Envolver-te. Envolvida em retalhos de mim...
Olhos fechados, janela fechada. Quarto abafado. O ambiente está seco e sem luz. Só a fresta de luminosidade que invade o chão pelo vão da porta.
Espero dormir, mas com muito cuidado para não me virar demais. Posso cair. (...)
20/08/2008

Às vezes me sinto completamente cego, sem visão, como se eu não tivesse futuro. Acabo procurando minha própria mão e continuo procurando e procurando, não sei ao certo, mas continuo... Não sei o que é especial, ou o que realmente vale a pena, só sei que a vida está inclusa nesta questão. Sim! Minha vida também! A sua? Não me atreveria a analisar nada nesse momento de loucura, de obscuridade que me faz correr por cantos redondos, dar voltas dentro do mesmo quarto e não encontrar nada. Sabe o que é isso? Não encontrar nada? Apenas um vazio eterno e uma sensação de impotência?
Vou tentar dormir, quem sabe se eu virar para a direita eu acorde melhor que ontem. Talvez se eu virar para a esquerda eu caia da cama... Não! Não adianta! Nesses dias, acordar e respirar me faz mal. O desanimo pesa os olhos e o ar avisa ao corpo que ele ainda vive. Viver significa ter que enfrentar... Palavras fortes, vida forte!
O meu olhar fixa o teto branco, cada parte do meu corpo está encostado no colchão, que tenho a impressão de já ter o mesmo formato da minha sombra. Encontro-me fraco, sem força de movimento, apenas as pulsações fazem do seu ritmo o resumo da minha vida. E novamente olho para o teto. Tão branco... Reflete o que não consigo refletir no momento. Estou no escuro, só absorvo. Viro para o lado esquerdo da cama. Não! Não posso ficar deste lado, tenho a grande possibilidade de queda. Não posso me arriscar. De bruços meu pescoço dói. O melhor é virar para a direita e me encolher até virar um pequeno aglomerado embaixo do cobertor. Desse jeito estou protegido.
Tenho certeza que quando sair desse ciclo entrarei em outro e depois desse outro estarei nesse de novo. Interminável! Ciclos e reciclos. Vidas de bolas! Que rodam só com atrito!
Como posso me defender desse chão áspero? Deveria ter colocado carpete. Mas carpete me dá alergia, ataca a rinite, mas amortece a queda. Talvez, um chão daquelas madeiras sintéticas. Acho que seria agradável. O clima ficaria menos frio. E a queda menos dura. Ilusões com verdades, verdades com ilusões, não encontro o puro, o bruto, o não lapidado, só modificações da verdade. Tudo me confunde.
Como agir? Será que alguém vai abrir aquela porta? Será que devo sorrir? Correr? Gritar? Fingir? Será que vão me reconhecer? Como podem me conhecer se nem eu mesmo me conheço? Tudo gira lentamente em torno do nada que fingi girar. Estou tonto! Pronto! Não sei onde me apoiar. Acho que esse quarto de repente se tornou grande demais para o eu que não existe neste momento, mas em frações de segundos, o eu surge e se multiplica, me sufocando dentro do mesmo espaço que antes era infinitamente maior. Estou falando de segundos, na medida do tempo que a proporção entre mil sorrisos está para uma lágrima. Sim! Lágrimas são intermináveis. A tristeza anda em câmera lenta.
Todo esse desconforto eu que criei, então deveria ser eu a descria-lo, não? Mas essa imensidão que existe quando estou nulo, me enche de medo!...
19/08/2008

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escurosão indiferentes.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Repara:ermas de melodia e conceito
