04/12/2009


ÉRAMOS LIVRES EM NÓS MESMOS
E ISSO TORNAVA-NOS INSEPARÁVEIS
SEMPRE PERTO, MESMO LONGE...


Amigo

Amigo sorriso moleque
Mão segura... juntos!
Sem freio no cadilaque

Sempre aqui! Sempre!
Inseparáveis na ida ou na vinda
existia vida!

Digo agora EXISTE vida
dentro de mim...

Doce amigo nunca deixarei
Que nossas lembranças morram
Que nossos sorrisos se apaguem
Que nossos sonhos voem
e quantos sonhos!
Quantos?
Tantos que seria impossível contar...

Nossa história é um belo conto
e se eterniza nas palavras...

Você, meu bom amigo
Ache vida aonde quer que esteja
Ache alegria....
E espero que
finalmente
encontre o que tanto busca...

Hoje choro por nós
pelos que ficaram
pelos que ainda trilham
essa vida...
Vida muitas vezes sem luz
Dura, dolorida... a gente SENTE!

Por ti abro um sorriso
Por ti morro de saudades
Se tivesse um pedido
pediria teu abraço

Voe em paz!
Abra os braços e sinta o vento
Voe plenamente na plenitude dos céus
Desenrole o suspense da vida
e sorria por ter VIVIDO
por ter AMADO
por não ter tido medo de VIVER

Estou contigo em meus braços
estou de mãos dadas...
continuamos...
ANDANDO...



E AQUI CANTO NOSSA ÚLTIMA MÚSICA (CANTADA DESAFINADAMENTE - LÓGICO MEU CARO! RS)

"E nossa história
não estará pelo avesso assim
sem final feliz...

Teremos coisas bonitas pra contar
mas até la
vamos viver
temos muito ainda por fazer
não olhe pra trás...
apenas... começamos!

O mundo começa agora...
aaaaa
APENAS... COMEÇAMOS!!!"


Uma homenagem aos meus grandes amigos RIQUE e GU!

Com carinho
Com amor
Com saudades...
Fabiane Rivero Kalil





03/12/2009

VIDA

Recriei!
Momentos vis
Momentos cegos
Momentos abertos

Recri!
Na fé dos homens
no flagelo constante
na figura do tempo

Tempero!
Salguei!
Senti, me despi...

...até... mais
Salguei demais...


Momentos esculpidos
moldurados presos
quebrados...

Liberdade!
Voar livremente
em mim...
Descobrir o meu
Achar sinceridade
Dentro...

Fora!
Só depois...
colocar vida
em tudo
que não dentro...
em tudo que está fora...
e criar novos
momentos...

Respiro!
cheiro de mato molhado
cheiro de orvalho
cheiro de vida vivida suada...
lavada...

Renovada!!!!


Com carinho, Fabiane Rivero Kalil
a todos que tem paixão pela vida!

22/11/2009




Pintinhas de céu.

Hoje o céu invadiu a noite
colheu todas as estrelas e
pintou uma obra de arte
Perfeita...
Suave...

Invadiu com toda profundidade
com toda incerteza de um oceano

Mar aberto
Mar perto
Mar... ar...

Intenso.

Abracei todas as estrelas desse céu
Contei cada uma delas
Menores, maiores...
Tentei sentir cada pedacinho de espaço
Mas antes que eu pudesse estar
Eu acordei desse sonho azul.

E a única lembrança que me resta
é a brisa que traz...
Quando o vento toca com cheiro...

Guardei num lenço meu desejo
de voltar lá... no céu esculpido
cuidado e lapidado por Deus...

Doce sonho... sorriso encantado de manhã...
Ainda há orvalho...
Ainda há....
Um doce fim, um novo começo...


Fabiane Rivero Kalil



20/11/2009



Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem  alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou.  Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que soque não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo :  "Fui  eu ?" Deus sabe, porque o escreveu.  Fernando Pessoa



Poema em linha reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa

18/11/2009


Existe uma ponte. Existe um sim. Existe um lago. Existe um fundo. Existe um horizonte. Existe uma bola. Existe um coração. Existe um batimento. Existe um corpo. Existe um movimento. Existe uma respiração. Existe uma vida. Existe uma chance. Existe um precipício. Existe um momento. Existe um tempo. Existe um por que. Existe uma resposta. Existe um principio. Existe um fim. Existe uma escolha. Existe um não. Existe você. Existo!


Fabiane Rivero Kalil

16/09/2009




SONHO LARANJA



Espaço no tempo deslocado... mágico. Parei diante da intensidade e ela me respondeu com um suspiro. Respirei. Inspirei. Coração acelerado sentia ondulações paralisadas. Presa num pedaço de momento. Até que a suavidade tomou conta do sabor, cheiro e tempero, misturado com o todo que parou.


Senti minha mão enveludada, envolta de quimica organica codificada pela não razão de estar. Belo sonho. Pedaço de verdade soluvel. Pedaço de ilusão palpavel.


Sonho bom que voa para longe assim que meus olhos se abrem. Mas que talvez volte, quando um dia os fechar...


Um prazer da vida... Sonhar!!!



Fabiane Rivero Kallil





27/07/2009


Mudança



Tudo fica pequeno quando se alcança

Pequeno do tamanho de uma criança


Pequei no todo que cansa

Tropecei no pé que dança


Pé que muda duma dama

Vira moda de mudança

Se não mudar vira muda

Cala a alma da música



Fabiane Rivero Kalil


28/01/2009

Ciclo

Lugar, vazio
Lugar, olhar
Lugar, visto
Lugar, instinto...

Encontro
Desencontro
Tempo --------------------- espaço
Você, eu...e...eu

Ritmos, batidos
Indo e vindo
Idas e vindas
Vidas,... vividas

Movimentos que movem
Ventos que acolhem
Que acolhem
e recolhem
encolhem
olhem
em
me
e....

Fabiane Rivero Kalil

12/01/2009

FELIZ 2009!

Depois de ter me vestido de "arco-íris" no ano novo (afinal eu quero dinheiro, amores, paixões, paz, esperança...), ter pulado as ondinhas e ter jogado algo para dona do mar, voltei para o cotidiano paulistano.

Movimentos, carros, luzes, informações em cada milímetro de asfalto... Confesso que fiquei um pouco tonta e minha cabeça doeu levemente com o peso da cidade grande.

Percebi esse fato quando entrei no shopping. Não sei se foram as luzes que me hipnotizaram, ou se foi ar rarefeito que fez meu cérebro perder a capacidade de pensar, só sei que senti um desejo incontrolável de consumir coisas inúteis. Não importa quem ou o que foi o culpado, só sei que, inexplicavelmente, comprei um cofre no formato de um porco de pelúcia que canta "my only sunshine" toda vez que vc coloca uma moeda nele. Fantástico!

Fim de ano é o paraíso fiscal da política brasileira. Afinal, para que falar de crise, guerras e efeitos colaterais causados pelo desequilibrio ambiental, se está chegando o carnaval? Para quê? Eu não vejo motivo algum para parar de sermos o que somos, agir como agimos, afinal, o próximo ano chega rápido... E viva a fanfarra! E feliz ano novo, que 2009 seja melhor que 2008... Ops! Déjà vu!...


Fabiane Rivero Kalil


09/01/2009

CER

Olhar e ver
Ver e sentir
Sentir e... transformar!

Palavras ditas
Palavras escritas
Palavras mudas
munidas
musicadas...

Porém cheias de cheiras com cerejas...
Ventos em loco
não locomovem
nem movem...

O sentido
que a cada dia é dito
ditado
editado...
tato!


Fabiane Rivero Kalil


05/11/2008

???

Formei-me em jornalismo. Sim! Como pessoa curiosa que sou, achei que realmente era a melhor opção a se fazer. Afinal, sendo uma jornalista poderia falar sobre cinema, tecnologia, animais, doenças, cultura...

Só pelos temas dá para ter certa noção de todas as coisas que eu gostaria de ser... Sim! Eu já quis ser médica, cientista, veterinária, atriz, diretora de cinema, roteirista, crítica de cinema e fazer mecatrônica.

Depois que me formei, descobri que eu fazia muitas coisas que a maioria dos jornalistas não sabiam fazer. Eu editava vídeo, fazia layout para sites, animação em flash, artes no corel e ilustrator, roteiros, estudava 3D e amava aparelhos eletrônicos. Eu me achava uma ótima jornalista, só não entendia uma coisa, as pessoas insistiam para que eu fizesse matérias usando as regras da nossa excelentíssima gramática e que estivessem dentro das regras específicas dos textos jornalísticos, o mais conhecido lead. Eu simplesmente odiava escrever esse tipo de texto, afinal, não era história, não tinha emoção, e quanto menos adjetivos fossem usados, melhor era o texto. Meu deus! O que é um texto sem sensações?

Até que um belo dia, depois de quatro anos ACHANDO que eu era JORNALISTA, fui numa entrevista na Jovem Pan, onde descobri que eu não fazia nada que um jornalista faz. Eu era tudo, menos jornalista. Meu texto não serve para os jornais, talvez para a parte de crônicas. Mas para eu escrever nessa editoria, eu teria que ter uma credibilidade fora do normal, ou seja, teria q ser jornalista de trás para frente.

Depois que descobri que não sou uma jornalista, descobri que eu sou... Hum! Eu sou... Difícil! Não sou nada! Simplesmente sei fazer algumas coisas que as pessoas gostam...

Acho que voltei ao marco zero! Acho q já posso voltar para barriga da minha mãe!
Fabiane Rivero Kalil

23/09/2008

Parte 9

Ontem à noite a lua estava coberta por nuvens que desenhavam mistério. Hoje ela se mostra timidamente por uma fresta de luz...
Às vezes vejo-me incrédulo. Meus olhos só vêem nuvens e não mais lua, mas logo alguma luz aparece para aquecer a solidão da noite. Nestes dias o quarto se inunda de penumbra, meus pensamentos ficam foscos e eu sem ar...

Às vezes queria ser a lua, me cobrir de nuvens e me esconder dos infinitos olhares que buscam, nem sempre algo definido, simplesmente buscam o que falta... E também tem aqueles momentos que quero explodir. Sim! Principalmente quando chego a algum lugar do espaço, onde me encontro, onde pude observar e juntar fragmentos de pensamentos. Não aquela explosão ruim, mas aquela que contamina o ambiente, invade a mente e finalmente, algo muda de lugar.

Atrás de mim tudo se move em caixas.

O cheiro ainda está pelo quarto, as lembranças também. É como se elas voassem livremente, sem dor, sem pesos. Isso que eu chamo de um passado bem resolvido. Simplesmente se transformam em sorrisos e saudades.

Tenho um pouco de receio de continuar mexendo nesta caixa. Ela olha para mim com cara de desespero. Não sei se é desespero de estar ali, aberta, exposta ou se ela quer se livrar de todo esse passado que já foi e que simplesmente ninguém lembra. Se ninguém lembra porque eu deveria lembrar? Talvez eu não queira lembrar.

Mas, hum... Que cheiro delicioso pelo quarto... (senta no chão, encosta na parede e fecha os olhos) E se tiver mais lembranças agradáveis como esta? Não quero que elas se percam, nem sejam esquecidas pelo tempo ou...

A luz do luar entra pela janela juntamente com um vento forte e gelado. O vento bate de frente com uma pilha de papeis dentro da caixa rosa. Os papeis, de diferentes tipos e tamanhos, se espalham pelo quarto enlouquecidamente, descontrolados. Mas antes de qualquer lembrança voar pela janela, o vento se acalmou e transformou-se numa serena brisa de primavera.

O céu começou a clarear e os pássaros a cantar. Realmente a brisa não só lembrava a primavera como de fato a estação acabara de chegar. Algo mudou.
O mundo girou. O sol se moveu. O jardim hoje tem flores...

Que luz é essa? Que cheiro é esse? Não é mais o cheiro da carta... Nossa! O que aconteceu com meu quarto? As lembranças se revoltaram por estarem dentro da caixa e resolveram sair sozinhas? O sol está mais quente que ontem... Minhas costas doem. O chão não é mais como antigamente, antes podia dormir aqui e nada acontecia. (risos) Se minha mãe estivesse aqui ela diria que a idade chega para todo mundo.

(passos subindo a escada)

- Filho!
- Mãe?
- Você não quer mais seu xampu?

(abre a porta do quarto)

- Que bagunça é essa? Filho... (olhar de indignação)
- Mãe, não é bagunça! É organização temporal.
- Temporal? Com certeza parece que passou uma tempestade aqui.
- Esquece mãe. Preciso me concentrar. Por favor... (aponta para a porta)
- Faz dias que você não sai deste quarto...
- Mãe!
- O que você fica fazendo aqui?
- Mãe!
- É pornografia?
- Mãe!
- Drogas?
- Mãe!
- Você é gay filho? Pode falar para mamãe...
- Mãe, chega!
- Mas...
- Sem mais nada... Preciso ficar aqui e arrumar as coisas... Obrigado pelo xampu, é esse mesmo que eu gosto.
- O que você faz com os xampus?
- Mãe. Por favor! (aponta para porta)

(Porta fecha. Passos descendo a escada)

O que ela quis dizer quando me perguntou o que eu faço com os xampus? Será que ela acha que coloco no nariz? Ou me masturbo olhando para a mulher que está na embalagem? (risos)
Até a próxima!!
Fabiane Rivero Kalil

11/09/2008

Parte 8

Ufa! Isso que eu chamo de uma provisão divina. E agora? Meu quarto está cheio de caixas. Caixas que só vão sair do meio do caminho se eu tirar. Elas, infelizmente, não têm vontade própria.

Espero que eu não morra com nenhum passado encaixotado. Desenterrar lembranças nem sempre são agradáveis...

Interessante! Uma carta rosa dentro de uma caixa rosa. Acho que é um sinal de início (risos)...



“As palavras tentam escapar
Não falar de ordem
Não vou colocar-me em ordem

Entre teu carinho e a minha canção
É só amor!
Enfeitei meu mundo
Fiz carnaval no meu coração
Para que o meu silêncio não te incomode...
SILENCIANDO” (L.)


Nada mal para um bom começo. Fala de ordem, de amor e de silêncio. Tudo que eu preciso nesse momento. Silêncio eu já tenho. Ordem? Talvez leve um tempo. Amor? Achei um pouco dentro dessa caixa.

Lembro-me dessa carta. Lembro-me de palavras sinceras e profundas, mesmo que tenham saído mudas... Para um bom entendedor um olhar basta.

As pessoas perderam o habito de olhar. Elas olham, mas nada vêem. Elas olham, mas não interpretam, não conseguem passar das máscaras construídas e forjadas por espelhos que nada refletem. O brilho foi ofuscado dos olhares, das palavras. O tempo rouba o que mais amamos em alguém, sabe aquele brilho que nos apaixona e encanta?

O tempo nos torna cegos e coloca a rotina no lugar do encanto.

Sabe aquele caminho que você faz todos os dias? Aquela rotina que cega? Tudo fica fosco, sem vida. Capaz de o carro chegar sozinho até o trabalho e do trabalho para casa, assim como os cavalos fazem quando acostumam com um trajeto. Já tentou fazê-los virar? Olhar para o lado?

Quando tomamos distância, voltamos a enxergar o que estávamos impossibilitados de ver. E isso nada mais é que a retomada do primeiro reflexo. A sensação do primeiro impacto, sentimento, visão, cheiro, o que fazem das lembranças algo especial. Tanto de lugares, quanto de pessoas. Tudo têm um reflexo em particular, que os tornam peculiares e interessantes...

Que cheiro é esse? Minhas mãos estão perfumadas. Deve ser... Sim! Carta perfumada. Que interessante, faz tanto tempo que essa carta está aqui, que não faço a mínima idéia como esse cheiro ainda existe. Que cheiro delicioso!

O silêncio no quarto foi interrompido por um longo suspiro.



Até a próxima!

Fabiane Rivero Kalil

03/09/2008



Parte 7

O frio canta alto pela janela e o breu invade o quarto. O sonho penetra no corpo encolhido sobre a cama. O silencio amortece os sentidos, torna o ar pesado e o sono num grande pesadelo. As mãos apertam o colchão e os dentes à boca. O corpo se encolhe nele mesmo, na tentativa de se proteger do nada que o ameaça.

O vazio toma conta e rodeia a cama. Anula tudo por onde passa. A cama não existe mais.
As bases estão sem tempo ou espaço, encima ou embaixo, perderam sua lógica e seus sentidos. Os eixos X,Y,Z se tornaram XYZABC... Nada mais se define. O corpo adormecido se confunde entre o real e o imaginário. O mundo paralelo se divide.

Sombras descolam-se do chão na tentativa de serem reais, de deixarem de serem somente um recorte da realidade, um efeito dado ao que existe ou simplesmente um contorno que imita tudo que se move.

A gravidade se esconde encima da cabeça, entra pelo tímpano e escoa pelo eco que emite dor. O travesseiro se transforma em milhares de pedregulhos que espetam a face. A consciência está fora da mente e a mente fora da pessoa. As partículas estão em guerra. Mente, alma e espírito X realidade, tempo e medo. Interior não exteriorizado, alucinado no não poder.

Farelos que saíram de um pão. Hoje não mais pão, mas sim farelos. Juntos são algo, separados, são apenas farelos. Porém, antes mesmo, desses farelos serem pão, esse pão era formado por diferentes elementos, que por sua vez, não deixaram de existir, mas juntos, misturados, se transformaram num novo elemento...

Cada pedacinho de musica que escutamos, cada pessoa que passa pela nossa frente ou até mesmo cada cheiro que entra no nosso corpo, tudo modifica nossa composição, tudo acrescenta, abre perspectivas, horizontes, portas... Constroem prédios, relações, ódios... Destroem conceitos, plastificam momentos e paralisam as pessoas de medo.

O novo surge a cada instante de vida. A metamorfose acontece! Ela não espera voluntários, ela simplesmente acontece!

Cada caixa espera ser um novo elemento, nesse novo momento. As caixas fechadas são apenas caixas fechadas, como os farelos que para nada servem...


- Aaaahhh!!! MÃÃÃÃÃE!!!


Mãe? Meu deus. Não acredito que eu chamei minha mãe. Estou petrificado de medo, como uma criança depois de um pesadelo. Minhas mãos, minha cabeça e meu maxilar doem. Espero que ela não suba. Seria ridiculamente patético. O que eu vou falar para ela se ela subir? “Mãe, então, é que eu estava aqui arrumando o quarto, quando de repente, eu fiquei com medo de uma caixa rosa, ela queria sugar minha alma. Resolvi deitar para me acalmar e tive um pesadelo, algo parecido com a morte...”. Não! Patético! Ela não entenderia... E certeza teria a brilhante idéia de me levar ao médico.

(passos subindo a escada)


Deus! Deus! Não deixe que seja a minha mãe... O que eu vou falar para ela?

- Filho? Tudo bem? (tenta entrar no quarto) Não consigo entrar. O que tem atrás da porta?
- Estou arrumando o quarto. É uma caixa que está atrás da porta.
- Você quer falar comigo? Eu escutei você me chamar...
- Hum... É que... (meu Deus o que eu falo para ela?) Não queria sair agora do quarto, no meio dessa arrumação. A senhora mesmo sabe o quanto é ruim parar algo na metade... Então eu estava pensando, se, assim...
- Mas quanta embolação... Parece até que está abobado! O que você quer?
-Xampu! Isso... Eu preciso de xampu...


(passos descendo a escada)

Até a próxima parte.



Ab.,



Fabiane Rivero Kalil

28/08/2008




Parte 6



Talvez dentro dela haja um passado limpo, ou que foi limpo com o tempo. Talvez não haja perigo de abri-la. Espero que não me afete ou invada minha mente com lembranças esquecidas.
Eu não desejei cheirar mal. Mas mesmo assim o cheiro apareceu. Repugnante!


O nosso cheiro deveria ser algo que delatasse as intenções de cada um. Cheiros bons para intenções boas, variando de acordo com a intensidade de cada ação. E cheiros ruins alertariam a todos...
Poderia ser assim também para as lembranças, as caixas, os objetos... A vida poderia cheirar emoções...


Talvez não... Se fosse assim, o Homem perderia seu mistério e seus segredos. Os sentimentos seriam revelados pelos cheiros e por conseqüência, a racionalização seria inevitável. As questões humanas seriam resumidas em tabelas periódicas e colocadas em palavras concretas, não mais subjetivas. Ainda bem que as verdadeiras definições da vida estão bem guardadas...


Bem guardas estão as coisas dentro desta caixa rosa. Enrolei com tanta fita adesiva que não consigo mover a tampa. Caixa pesada. As caixas grandes repletas e as pequenas vazias...


Depois de muito esforço a caixa foi aberta e dela saiu um cheiro de naftalina misturado com sabonete. A caixa estava repleta de livros, cadernos, folhas, sensações eternizadas no papel, tentativas de explosões no silêncio e registros do passado que já foi e voltou em linhas.


Dei um pulo para trás repentinamente, meu coração acelerou e aqueceu o corpo. Guardei uma parte do meu coração aqui e não me lembrava. Que sensação é essa que há anos não sinto? Que lembranças são essas que me aprisionam? Não quero sentir, não quero chegar mais perto. Corro o risco de ler... Não sei o que o fazer com essas linhas, com esses sentimentos, com essas pessoas encaixadas, encaixotadas... Preciso de ar!


Olho para fora, mas as palavras me faltam. Olho para o lado e me sobram pensamentos. Lembro vagamente do que escrevi. Fragmentos de um todo que gera angustia e completa meu corpo de medo.


Fixei meus olhos na lua e segurei firme na grade da janela. Não posso cair. Minhas mãos geladas e molhadas marcam a grade com nervosismo. Preciso dizer, preciso... Não consigo dizer nada. Nem para lua. Nem para o improvável... Nem para os surdos, nem para o desespero que me mantém nesta paralisia. Estou presa. É isso!


Vou deitar. Quem sabe eu crie coragem e consiga arrumar a caixa amanhã. Ela não está com a aparência muito boa. A água a deformou. E ela me deformou de medo. E o medo, essas horas, deve estar rindo da minha condição de verme.


Preciso achar uma posição boa para que eu não me vire muito rápido. A queda não seria uma ótima idéia hoje. Nenhuma palavra iria me segurar. Nem o edredon da minha avó iria me salvar hoje. Meu coração dói.


Os olhos fechados transbordam escuridão sobre o corpo encolhido no colchão. Solidão sai pelos poros assustados e os pontos de luz nada iluminam, se tornam ausentes no meio de tanta asfixia. A ordem embaralhou a lógica e a visão ficou difusa... A cama ficou mais estreita e a queda mais provável...


Até amanhã!!!


Fabiane Rivero Kalil

26/08/2008



Parte Cinco


O que é isso? Que luz é essa? Que calor é esse?...
O vento bateu dentro do quarto e um odor horrível invadiu o ambiente...

Quantos dias eu não tomo banho mesmo? Quantos dias eu não saiu desse quarto?
A realidade invadiu a vida pelo nariz. Cheiros sempre trazem lembranças. Sensações. E com elas, reações.

Preciso trocar a cortina do box do chuveiro. Toda vez que tomo banho o banheiro fica completamente molhado. A borracha desse rodo não ajuda na hora de puxar a água para onde ela deveria ir. Afinal o box é delimitado e um ralo é colocado lá para a água escoar por ele. Mas não é bem isso que acontece aqui nesse banheiro.
Acho que meu ralo tem aversão a água. Sabe quando você nasce homem e se sente mulher? Ou não se encaixa em lugar algum? Ou quando a definição de ser humano não se encaixa no seu contexto de ser? Esse ralo não se sente ralo, nunca se sentiu. Acho que ele deve ser outra coisa não definida, pois, definitivamente, ele não cumpre o propósito de ser um ralo.
Se eu fosse pensar como esse ralo, que no caso é um buraco no meu chão enfeitado com um pouco de metal vagabundo... Talvez eu não quisesse escoar água com tufos nojentos de cabelos, que com certeza grudariam por toda minha extensão. Talvez fosse um pouco mais ambicioso, talvez quisesse conduzir petróleo...
Não sou um ralo e nem quero ser. Também não vou começar a falar com objetos inanimados. Nem sou engenheiro, nem arquiteto para entender a lógica da água subir e não descer. E isso que não moro em São Tomé das Letras...
Olhar para o chão não vai me levar a lugar algum. Preciso é tirar esse cheiro que me... Como? Ai meu deus! Não é possível! Como pude deixar faltar? Como vou tomar banho sem xampu? Amo xampus. Não vivo sem xampus. No meu banheiro nunca faltou xampu.
Posso fechar os olhos e ver as prateleiras cheias de xampus... Como é bonito ver. Como é bonito falar – XAMPU. Mas não vou sair daqui... Não conseguiria. Então, o sabonete vai ser um ótimo substituto. Serve! Meu cabelo vai ficar um pouco duro, mas não pretendo ver ninguém. A não ser a minha mãe, que também não me preocupa, afinal, faz anos que não sei o que é um cafuné dela. Meu cabelo está seguro assim. O sabonete basta para lavar. Garanto que antes da publicidade investir milhões para cativar a vaidade humana, um simples sabonete bastaria. Lógico! Tomamos banho para nos limpar, certo?
Uma vez, me lembro que acompanhei minha mãe ao cabeleireiro. Sentei na sala de espera... Como o nome diz, sentei para esperar...
Pessoas frenéticas são encontradas em toda a parte. Não dopadas. Mas simplesmente por serem.
Um ótimo lugar para cultuar o corpo humano é no salão de beleza. Lugar do “prazer” obrigatório. Diria até que é um “prazer” culturalmente e socialmente imposto.
Esses lugares me fazem pensar na imagem de alguém que observa uma morena maravilhosa na praia e repara no seu corpo... Com aquele biquíni minúsculo e pêlos saindo pelas laterais da virilha... E logo após, me vem à imagem da pessoa que presenciou isso. Seria um assunto a ser estudado em qualquer cabine de depilação.
Todas as senhoras, que sentavam na sala de espera, falavam de suas rugas, ou melhor, como não tê-las... Sempre caiam na solução botox de vida. Sim, é um estilo de vida! Onde elas confiam piamente na salvação feita por profissional da estética autorizado a furar. Os pecados são pagos por uma seringa cheia de uma substância duvidosa, que é aplicada em regiões específicas do rosto e como um passe de mágica, as pessoas saem todas com mesma cara. Purificadas! Refeitas! Salvas das rugas... E com um incrível dom de sorrir.
A expressão triste jamais voltará àqueles rostos. Alguns que abusam da “felicidade” podem vir a babar, pois o sorriso fica tão largo que a boca não consegue fechar por completo... Nada contra nenhuma substância que faça as pessoas serem felizes. Nada mesmo... Só que essa dose de beleza não seria o suficiente para secar minha dor de cabeça. Se esticassem meu rosto, talvez ele se rompesse na tentativa de derramar uma lágrima... Molhada... Água... Chuveiro... Banheiro...
Por um tempo não definido, o corpo ficou e a alma se ausentou do quarto. Tempo suficiente para que a água invadisse o banheiro por completo e entrasse no quarto. O quarto estava seco graças a uma caixa grande que sugou toda a água que passava pela porta. Caixa grande e cheia de passado alagado. Era de papelão rosa, agora, é de papelão marrom com aroma de sabonete...
Até amanhã...
Fabiane Rivero Kalil